A Fuga

sinopse: Não importa o quanto corramos, quantas vezes nos levantamos, quantos obstáculos vençamos; uma hora o fôlego acaba e descobrimos que não se foge do…

Estreia

12/3/2010

Ficha técnica

texto: William Lial

direção: Renata Jesion

elenco: Eduardo Waddington

direção de fotografia e operação de câmera: Nelson Kao

Cartaz

Por Pipol

Fotos

Por Nelson Kao

Conto original

“A Fuga”, de William Lial – http://www.cronopios.com.br/site/prosa.asp?id=4438

… Então ele correu, correu, correu, em frente, direto em frente, sempre em frente, correu, correu, mais rápido, mais rápido, um, dois, três, quatro quarteirões, correu, correu, correu, virou à esquerda, olhou para trás, correu, correu, correu, virou à direita, e olhou para trás, mais rápido, mais rápido, mais um, mais dois, mais três, mais quatro quarteirões, esquina à direita, esquina à esquerda, desceu a ladeira, quase aos tombos, freou, quase caiu, correu pelo leste, a rua acabou, virou pro norte, seguiu, respira, respira, virou pro oeste, rua longa, bom, bom, bom, correu, quase voou, decolou, subiu, coração aos saltos, garganta seca, olhos acesos, testa encharcada, ninguém é de ferro, ninguém é de ferro, ninguém é de ferro, não se foge para sempre, não se foge, não se foge, cansou, cansou, cansou, o coração prestes a se cuspir pela boca, a boca seca a rasgar a garganta, os olhos vidrados no vazio, o suor a escorrer frio pelo rosto, as pernas bambas a curvarem-se, a salvação a fugir inalcançável, o relógio a tiquetaquear às costas, o tempo a tocar-lhe o ombro, não paro, não paro, continuou, continuou, correu, correu, a calçada, a calçada, íngreme, íngreme, vou pular, vou pular, droga, quase caio, olha o degrau, o degrau, levanta, levanta, eu não mereço, continua, continua, levanta a cabeça, levanta a cabeça, a respiração, a respiração, o coração não vai agüentar, não vai, não, não vai, respira, respira, volta pra rua, olha o buraco, salta, salta, cansou, cansou, não vai agüentar, não vai, não, não vai, não se foge, ninguém foge, não vai agüentar, não vai agüentar, a boca não fecha, os olhos se embaçam, o coração trôpego, tropeça, os joelhos se curvam, as pernas se abrem, os pés se torcem, e os braços, os braços, pêndulos jogados, inanimados, largados, porque, porque não se foge, não se foge do tempo, não se foge nunca do tempo. Ele sabe. Ele sabe… Sabe… O tempo sabe… Ele sempre sabe que nosso fôlego uma hora acaba.

William Lial é escritor. Autor dos livros ‘Sombras’, ‘Noturno’ e ‘O mundo de vidro’, além de colaborador de veículos literários no Brasil e fora do Brasil.

E-mail: wlial@hotmail.com

Blog: http://williamlial.blogspot.com

Twitter: http://twitter.com/WilliamLial

Eduardo Waddington trabalhou em importantes filmes na década de 1960, como “Bahia de Todos os Santos”, de José Hipólito Trigueirinho Neto. Conheça mais um pouco dele no vídeo abaixo e no http://www.imdb.pt/name/nm0905350/.

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