- março 26, 2010
- Publicado por: Lucas Pretti
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A Sete Palmos
sinopse: Um homem franzino, com as pernas e braços finos encolhidos na calça jeans e a blusa preta, surge inesperadamente em um enterro. Quem será ele?
Estreia ao vivo
26/3/2010
Ficha técnica
texto: Vera Helena Rossi
direção: Renata Jesion
elenco: Carolina Leiderfarb e Bianca Lopresti Lage
voz em off: Danilo Marques
direção de fotografia e operação de câmera: Lucas Barreto
Cartaz
Por Pipol
Conto original
“A Sete Palmos”, de Vera Helena Rossi – http://www.cronopios.com.br/site/prosa.asp?id=4455
Carregava algo de suspeito. Pendia levemente a cabeça e os ombros pra direita, equilibrando-se no movimento inquieto e repetitivo das mãos apoiadas nas pernas. Parecia assoviar calado uma canção alegre. Ninguém o conhecia, o que não o impedia de permanecer ali, alheio aos outros, ajeitado sob a proteção do assobio mudo. Andrea cutucou Alma com o cotovelo:
– É aquele ali. — cochichou.
– Quem?
– Aquele ali de calça jeans e blusa preta.
– Tá todo mundo de preto.
Virou os ombros de Alma com força na direção do homem.
– Aquele ali. Nem parece triste. – Andrea estava pálida, a rapidez natural da sua fala se reduzira a um lamento entrecortado. – Conhece?
– Nunca vi mais gordo.
– Eu também não. O problema é esse. O que ele faz no enterro da minha mãe?
– Dé. Calma. Está muito cansada. Vai ver é um primo distante. – tentou desviar o assunto – Não quer dormir em casa hoje? Dorme lá no meu quarto, que tal?
– E o Mauro?
– Se arranja.
– Não, meu pai precisa de mim.
Seu Paulo disfarçava o rosto abatido sob um lenço bordado com as iniciais P.H que escorriam pelo suor da testa. Mal conseguia erguer o corpo. Enquanto a terra cobria morosamente o caixão, o homem de calça jeans e blusa preta ganhava alguns metros da família.
– Olha lá. Tá se aproximando.
– Quem será?
– Não sei não. – arfou Andrea, mais cansada. – Faz favor?
– O que é, Dé?
– Vê pra mim quem é ele.
– Por que isso agora?
– Tô começando a achar que era um amante da minha mãe.
– Será?
– Tá muito esquisito. Ninguém sabe dele. E fica aqui perto, rodeando.
– Ah, Dé, por favor. Um amante no enterro da sua mãe, que maravilha. Faltava mais essa.
– Sério. Ele está cada vez mais perto. Olha só.
– Tá, tá. Vou lá ver então. Cada uma…
Andrea acompanhou a amiga. Quase andavam nas pontas dos pés. O homem não se intimidava, continuava com as mãos agitadas e a música entre os lábios. Alma começava a acreditar na amiga. A sete palmos da terra, a reservada Dona Vera enfim garantia sua necessária cota de escândalo: tinha um amante. Franzino, com as pernas e braços finos encolhidos na roupa frouxa. A mãe de Andrea era “roliça”, como a chamava a senhora de sombra larga quando não queria dizer a palavra proibida: “gorda”. Talvez procurasse naquele homem a falta que não encontrava em casa com o marido redondo.
Vera Helena Rossi é Mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC – SP e doutoranda em Comunicação e Semiótica também pela PUC – SP. Tem participações na revista Língua Portuguesa (ver “Carlos Drummond de Andrade”, matéria capa da edição de setembro de 2007 e “80 anos de Macunaíma”, matéria capa de abril de 2008).
Blog Palimpsesto: http://verahelena.blogspot.com
E-mail: verossi@uol.com.br
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Bate-papo entre atrizes e autora
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