Manifesto Binário

A cia de teatro catalã La Fura dels Baus escreveu em 2008 um documento falando pela primeira vez em “teatro digital”, intitulado de Manifesto Binário. No site deles há versões em castelhano e inglês.

Na época, traduzi o texto, mas esqueci em algum canto do computador. Hoje topei com ele e resolvi postar aqui.

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Manifesto Binário

La Fura dels Baus, 2008

http://www.lafura.com/entrada/eng/manifest.htm

tradução livre: Lucas Pretti, dezembro 2009

Teatro digital é a soma entre atores e bits 0 e 1, movendo-se na rede.

Atores no teatro digital podem interagir a partir de tempos e lugares diversos… As ações de dois atores em dois tempos e lugares diversos correspondem na rede a infinitos tempos e espaços virtuais.

No século 21, a concepção genética do teatro (da geração ao nascimento da cena) será substituída por uma organização de atividades interativas e interculturais.

Teatro digital se refere a uma linguagem binária conectando o orgânico com o inorgânico, o material com o virtual, o ator de carne e osso com o avatar, a audiência presente com os usuários da internet, o palco físico com o ciberespaço.

O teatro digital da La Fura dels Baus permite interações em palcos dentro e fora da rede, inventando novas interfaces hipermidiáticas. O hipertexto e seus protocolos criam um novo tipo de narrativa, mais próxima dos pensamentos ou sonhos, gerando um teatro interior em que sonhos se tornam realidade (virtual). A internet é a realização de um pensamento coletivo, orgânico e caótico, que foi desenvolvido sem hierarquia definida. O teatro digital se multiplica em milhares de representações, em que os espectadores podem colocar imagens de suas próprias subjetividades, por meio de mundos virtuais compartilhados.

Será que o teatro digital vai perpetuar a Pintocracia? Será que a Vaginocracia eventualmente vencerá? Ou será que ambas se juntarão em perfeita harmonia 0-1?

No teatro digital, a abstração absoluta coexiste com o retorno ao corpo, que pode ter uma dimensão sadomasoquista – tanto quanto uma dimensão sensual, angelical ou orgiástica; ou talvez uma mistura de todas elas.

Por definição, o ato teatral envolve um excesso, um excedente de performance. É o prazer de mostrar e ser mostrado. Uma sensação de identificação é estabelecida entre o ator e a plateia. Como essa identificação funciona no teatro digital? Como uma mão se encaixa numa luva? Como uma extensão de um ser? Pela integração na rede?

A tecnologia digital torna possível o antigo sonho de transcender o corpo humano. Assim, o ciberespaço pode ser habitado por corpos com um novo invólucro de representação, entre a subjetividade e a materialidade.

Temos que deixar nossa própria pele para chegar a uma referência comum de percepção. Os papéis do ator, do autor e da plateia tendem a se misturar.

A cultura digital não significa mais uma tecnologia de reprodução, mas a produção imediata. Enquanto no passado a fotografia dizia “era assim”, congelando um instante, a imagem digital diz no presente “é assim”, unindo o ato real, o teatro, o aqui e agora.

O teatro digital permite que a imagem se altere de uma configuração para outra, atual e virtual, deixando-a em diversos planos: um ícone da síntese que sempre será HUMANO.

1 comentário em “Manifesto Binário”

  1. [...] Lehmann, passa pela discussão sobre o que seria o teatro digital (atores+bits?) a partir do Manifesto Binário, do grupo catalão La Fura Dels Baus, e do conceito da pesquisadora dos Estados Unidos Nadja [...]

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