Teatro em Conexão – Debate com Artistas e Pensadores de Teatro – Parte 2 de 2 (final)
Nesta parte final os debatedores mostraram claramente suas diferenças e polemizaram bastante, criando momentos de reflexão bastante importantes.
Quem tomou a frente para afirmar que o Teatro Digital não é teatro foi Marcelo Lazzaratto, que afirmou ser um uso “adjetivo” do termo. Porque são formas artísticas que trazem uma teatralidade, ou seja, toma elementos do Teatro para si, mas não é teatro. Para ele, o Teatro, propriamente dito, como substantivo, tem que ser presencial. Para ele, interessa o campo do Ator. Ele acredita que este ator pode aproveitar as tecnologias como instrumento de virtualização, mas tudo tem que partir deste. Para ele, Teatro e Digital não são da mesma natureza. São contraditórios, existindo uma dicotomia entre o digital como uma ferramenta do Teatro ou como a coisa em si, como se não houvesse a possibilidade de evolução que permita a quebra destas fronteiras. Como se houvesse um abismo intransponível entre as palavras “Teatro” e “Digital”, e que nunca pudessem um dia se tornar “Teatro Digital”.
José Fernando de Azevedo aproveitou o gancho e foi além: criticou a necessidade de chamar o que é feito pelo Teatro Para Alguém de “Teatro”, reforçando sem perceber um texto dos nossos textos fundadores, de 2008, que já dizia “não importa o nome, o importante para o artista é fazer”. Ele também minimiza o problema enfrentado por companhias de arte híbrida, como o TPA: a dificuldade em se adequar à nomenclatura e às categorias dos editais para obter financiamento de suas atividades. José Fernando criticou: “Me sinto então numa fraude”, na confortável situação de quem já recebe financiamento público. E, finalmente, ele marca sua posição: afirma que o Teatro é a arte da co-presença, ou seja pressupõe que duas coisas acontecem ao mesmo tempo e de forma presencial. Ver e Fazer acontecem ao mesmo tempo e são co-presentes.
Antônio Araújo, no entanto, lembra José Fernando que a cena artística contemporânea está justamente colocando em xeque este regime da presença, que sim, ainda é uma das questões fundamentais e quase que fundadoras do Teatro. Cita uma peça de teatro estrangeira em que a atriz, movido a um cansaço da apresentação, abandona o palco e vai embora para sua casa, não retornando mais e deixando o público só pelos 40 minutos restantes. Assim ela critica a necessidade da co-presença como indutora do espetáculo.
Mantendo-se firme em sua proposição inicial, José Fernando retrucou que a peça questionava o regime da co-presença, mas que isto é válido pois a “pergunta” foi feita a partir do jogo e das regras pré-estabelecidas do “Teatro”, ou seja, da co-presença.
Co-presença esta que nunca foi estabelecida no espetáculo Os Cegos, do diretor canadense Denis Marleau (destaque do Festival de São José do Rio Preto 2010), outro espetáculo citado por Antônio Araújo em que os espectadores não percebiam que assistiam a um espetáculo sem atores, e sim apenas com projeções em bonecos em um palco vazio.
José Fernando reafirma que o que é feito pelo Teatro Para Alguém “independe do regime, independe da co-presença para que se efetive”. Para ele, “é um caminho que pode até se apropriar de elementos da representação, pode até se aproveitar de elementos do Teatro, mas que é outra coisa que não o Teatro”, fazendo coro ao primeiro discurso de Marcelo Lazzaratto. Se contradiz ao criticar o espetáculo que fez dentro do TPA dizendo que o palco onde foi feito o “Cardápio de Soluções Indigestas” era Teatro, pois havia co-presença, mas o espetáculo que era transmitido para os internautas não. Neste momento, ele deixou de refletir se não era tudo uma única coisa, um único espetáculo, com avatares e ramificações inéditos, respostas artísticas ao mundo multifacetado de hoje, feito por Facebooks, Orkuts, Twitters etc., que sim, hibridiza tudo e coloca em questionamento todas as instituições tradicionais.
Antônio Araújo coloca um outro ponto que lhe instiga: o fenômeno dos espetáculos transmitidos ao vivo para dentro das salas de cinema, como óperas do Metropolitan, algo que na prática é a mesma coisa feita pelo Teatro Para Alguém, gratuitamente. Retrucado com o argumento da democratização, Antônio Araújo vai além: Lembra uma discussão que o Teatro da Vertigem está tendo atualmente, em que questiona o por que de fazer “Teatro de Rua”, pois acha o viés da popularização e da democratização insuficiente para justificar uma prática artística. Uma colocação importantíssima, pois fazer teatro na rua, em si já traz um posicionamento, um questionamento do ato teatral que deveria ser, além de tudo, estético e de linguagem, e não só político: “A experiência do Teatro de Rua deveria discutir, questionar o próprio fato de estar na rua, de intervir na rua, qual que é esta linguagem da rua, e não ‘ah, estou aqui na rua colocando teatro para quem nunca viu teatro’; isto me parece pouco”.
José Fernando finaliza criticando o nome do grupo: diz que o Teatro é com alguém, e não uma questão deslocada que questiona este alguém. Renata Jesion retruca que muitas vezes mesmo trabalhando o Teatro presencial num palco, muitas vezes você se sente fazendo para ninguém, pois é assim que o artista se sente num palco quase vazio. Lembra que o nome do site do TPA levaria inicialmente o nome Teatro Para Ninguém, mas que é muito melhor fazer para Alguém que não se sabe quem é.
Percebemos então o quanto existe um preconceito sobre o que o TPA faz. Uma parcela da classe teatral não percebe que existe uma pesquisa por detrás das atividades do grupo, que cada um dos mais de 40 espetáculos postados no site do TPA foi um passo para uma grande evolução. Somos muito pouco acadêmicos e teóricos, e nunca pensamos com a clareza acadêmica dos debatedores. Mas está tudo aí para quem quiser conferir: a primeira motivação do grupo foi sim a necessidade da democratização. Mas diante da câmera imediatamente surgiram questionamentos estéticos e de linguagem. Já no segundo espetáculo do TPA de dezembro de 2008, “Deve ser do Caralho o Carnaval em Bonifácio“, experimentamos o estranhamento que o uso da lente grande angular da câmera traz ao olhar, delimitando o enquadramento, alterando a perspectiva e determinando um jogo de poder ao deixar enorme a imagem do ator que está próximo da lente enquanto os outros personagens ficam pequenos pois estão longe da mesma. Os atores tiveram que entender o que é atuar para uma câmera, sem perder a teatralidade e, sobretudo, contribuindo como um todo para contar a história sobe uma disputa de poder e dinheiro. Assumimos que a câmera era mais um ator, invisível, que precisava ser ensaiado tanto quanto os outros que estavam em cena. Exploramos todos estes elementos, juntamente com as possibilidades do plano-seqüência em todos os espetáculos seguintes. A partir de abril de 2009, com “Por Conta da Casa“, radicalizamos as possibilidades do audiovisual, explorando recursos de pós produção (colorização) e com presença de um diretor de televisão (Zeca Bittencourt). Com “Socorro, Que é Muito Respeitadora”, exploramos diferentes formas de iluminação que não as comumente utilizadas pelo Teatro, e um esquadramento/movimento de câmera mais televisivo, sob a supervisão do diretor de TV Danilo Marques e do diretor de fotografia Maurício Tibiriçá, parceria que se estendeu à Segunda Temporada de Corpo Estranho. Nesta e em “Esquecendo Wimbledon” começamos a pesquisar o uso de cortes, mesmo que ainda não ao vivo. O plano-seqüência já estava em questionamento interno! No especial “Dramadiário-RJ” experimentamos a relativização dos espaços, pois diante da câmera qualquer lugar pode se tornar um palco – surgia a primeira semente para “Vozes Urbanas”. No ano seguinte, experimentamos um novo formato ditado pela Internet Móvel: Peças de Um minuto e Meio, uma evolução diante das peças de até dez minutos ditado pelo Youtube, nosso paradigma da época. A partir de dezembro de 2010, com “Seis da Tarde” resolvemos usar uma nova câmera e brincar com o foco seletivo, recurso muito utilizado no cinema. Esta estética, aliado ao ilusionismo que a câmera permite e dentro de nosso primeiro processo colaborativo culminou em “Nunca Feche o Cruzamento“. Tudo isso em apenas dois anos, com encontros apertados dentro da agenda de cada componente, pois somos uma companhia sem financiamento nenhum e todos precisam trabalhar em projetos paralelos. E tudo feito no maior espírito de abertura da Internet, ou seja, todos ganham contribuindo com suas habilidades, formando equipes de trabalho voluntários que criam espetáculos. Estes são verdadeiros laboratórios de experimentação e vitrine de talentos ao mesmo tempo que gera um conteúdo para o público que vê apenas a ponta final: as mais de 40 produções no site mais as duas temporadas de Corpo Estranho. Pode-se enfim, criticar as escolhas estéticas e de pesquisa do grupo, mas nunca negar que existe tal pesquisa.
Talvez a mais serena contribuição tenha sido a de Elias Andreato. Ironicamente, justamente as pessoas de uma geração mais distante da Internet (como ele e Cláudio Prado) tem olhos para ver com generosidade as suas possibilidades. Segundo ele, a Internet “é fascinante, e possibilita um entendimento do Teatro muito bacana porque eu passei muito tempo fechado na caixa preta, às vezes sem grupo, solitário, ou mesmo reunindo amigos mas não sendo um grupo. Essa possibilidade de estar ou alcançar outras pessoas é muito bacana. Porque eu me tornei um ser muito solitário no teatro por causa de minhas escolhas. E isso (a Internet) me coloca no mundo fazendo parte dele. Me sinto confortável e com prazer. Me sinto criativo. Eu utilizo isso da maneira que acho melhor pra mim. Acho que falta nessa linguagem, às vezes, com toda essa modernidade, um conteúdo que eu -modésta à parte- adquiri no teatro, na poesia e com a Arte. Acho isso (a Internet) muito bacana. Fico fascinado. Não fascinado porque tenho mais idade mas eu utilizo isto, tento buscar o conhecimento que isto pode me dar”.
Enfim, segue a essência editada do material, com os melhores momentos. A discussão foi tão boa que a memória da câmera (malditos equipamentos, haha!) acabou e perdemos a parte final da discussão, mas aproveitem aqui e vejam por si só.
Muito obrigado a todos pela bela discussão!
Veja aqui a primeira parte deste debate.
2 comentários em “Teatro em Conexão – Debate com Artistas e Pensadores de Teatro – Parte 2 de 2 (final)”
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Oi Toni,
Obrigado pela sua contribuição! Sim, conhecemos o festival que o Prof. Tonezzi organizou! Aliás fomos um dos grupos que participaram dele. Muito obrigado!
Muito bom. Isto me lembrou um pessoal da Universidade Federal da Paraíba, que pesquisa o assunto e realizaou, recentemente, um festival. Há até uma pesquisa com o mesmo nome do evento de vocês: http://www.festivalcenico.com.br/
E tem o blog deles:
http://cenaecontagio.blogspot.com/
Parabéns e boa sorte!
Toni