Archive for the ‘linguagem’ Category

Que Mário?

Wednesday, December 16th, 2009

Mas … dentro do armário? Pois é. O Bortolotto com seu humor peculiar não deixaria a gente fazer um post sem deboche. Queremos que ele saia logo do armário. Com seus personagens marginais, ele sempre riu com seus heróis fracassados em invisíveis batalhas pessoais dentro do submundo. E todos nós nada mais somos do que isso. Artistas escondidos no armário da Praça Roosevelt, na falta de um lugar melhor para ir. O que fazemos lá? Nossas lutas diárias. Realizamos nossos espetáculos, discutimos os processos de trabalho, bebemos um pouco para esquecer a dor e tentar descobrir uma solução revolucionária para o mundo.

No entanto, este movimento não deve ser confundido com exuberância. A Classe Teatral é pobre, feia e suja. Desarticulada. Esfomeada. Corre o dia todo atrás de editais, SESCs, Secretarias de Cultura, e aceita qualquer trocado para continuar o circo. A pão.

Como alguém pode assaltar um teatro da Praça Roosevelt? Não temos nada para sermos assaltados. Basta entrar no prestigioso Espaço dos Satyros e ver suas instalações para constatarem o quanto somos ricos.

José Mojica Marins, Renata Jesion e Mário Bortolotto em Corpo Estranho 2

José Mojica Marins, Renata Jesion e Mário Bortolotto em Corpo Estranho 2

Pelo Mário finalmente nos mobilizamos. Mas precisamos ir além. Precisamos de segurança. Postos policiais permanentes. Iluminação pública adequada, nos dois lados da Praça. Alvarás para funcionamento dos bares. Queremos as obras de reurbanização, que há mais de 20 anos nunca saíram do papel. Queremos receber os valores dos editais sem cortes depois de aprovados. Queremos incentivos permanentes para criarmos vida em outros lugares a exemplo do que fizemos na Praça Roosevelt. Bairros antes abandonados como a Barra Funda hoje são pólos de cultura e de vida social. Isso mostra como o nosso trabalho tem valor público, e retorna para a sociedade sob a forma de transformação e bem-estar social.

E precisamos do apoio da esfera pública e da população para continuarmos a disseminar alegria e sairmos, cada vez mais do armário. Viva Bortolotto!

Quem puder ajudar a família do dramaturgo, por favor, faça uma doação para a conta da mãe de sua filha:
CHRISTINE DO CARMO VIANA
Banco UNIBANCO, agênca 0935, conta poupança 127721-6

Quem puder doar sangue:
Santa Casa, Rua Cesário Motta Jr, 112, Centro.

TPA no Rio, parceria com o Drama Diário e telão no t1K

Friday, December 4th, 2009

Neste fim de semana (sábado, 5, e domingo, 6/12) três coisas bem importantes acontecerão no Teatro Para Alguém:

1) Faremos a primeira transmissão ao vivo de peças fora da nossa sede, em São Paulo. Estaremos eu, o Kao e a Ale Fratus (mais nossas câmeras e notebooks) no Rio para encenar textos do blog Drama Diário (detalhes da parceria, abaixo).

2) Daremos continuidade aos projetos de parcerias, que iniciamos em julho com o Núcleo de Dramaturgia do SESI-British Council. Dessa vez são sete dramaturgos cariocas (Carla Faour, Larissa Câmara, Camilo Pellegrini, Felipe Barenco, Renata Mizrahi, Jô Bilac e Julia Spadaccini), que escrevem diariamente no Drama Diário sobre temas semanais. O tema escolhido para os textos no TPA foi “internet” – e os textos já foram postados durante a semana. As cenas serão exibidas ao vivo online em sequência, às 21h e às 22h no sábado (5), e só às 21h no domingo (6). Assista neste link ou clicando em Quarto na casa principal.

3) Faremos uma transmissão remota para uma plateia física, de verdade, não virtual. O Teatro Para Alguém participará do evento Twitter 1K – um encontro de twitteiros com mais de 1.000 seguidores no The Hub, escritório de cultura digital em São Paulo. Um telão mostrará a peça às 22h de sábado (5) para quem estiver por lá. É a primeira vez oficialmente que os espectadores do TPA se encontram e assistem a uma peça nova juntos.

Legal tudo isso, né?

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Abaixo, reproduzo o texto publicado no Drama Diário apresentando a parceria:

DRAMA DIÁRIO E TEATRO PARA ALGUÉM

Queridos leitores,

Neste final de semana (sábado e domingo, 21h) serão transmitidos ao vivo pelo site Teatro para Alguém de São Paulo, as cenas publicadas aqui com o tema INTERNET. Confiram o site
http://www.teatroparaalguem.com.br

Esta parceria é resultado de uma matéria realizada pela Folha de São Paulo que falava sobre projetos que linkavam teatro e internet: o carioca Drama Diário e o paulista Teatro para Alguém.

http://www1.folha.uol.com.br/folha/informatica/ult124u603083.shtml

É com muita alegria que concretizamos esta parceria e convidamos a todos para conferirem ao vivo como será esta experiência. As cenas serão gravadas em dois espaços: Studio Escola de Atores, em Laranjeiras, no sábado; e no domingo no IBAM, em parceria com o projeto A cena da cidade.

A exibição acontecerá em tempo real pelo site do Teatro para Alguém e para uma platéia em São Paulo que acompanhará a gravação através de um telão.

No elenco IGOR ALGELKORTE, JEFFERSON SCHROEDER, JULIANA BENDER, JULYANE BODINI, LUIZ ANTONIO FORTES E PAULA ALEXANDER.

Direção das cenas FELIPE BARENCO e supervisão de direção FELIPE HERZOG. Produção FELIPE BARENCO E FELIPE HERZOG.

Agradecimentos especiais MARIA GRIFTH, NATASHA CORBELINO E SONAIRA D´AVILA

Um pouco depois

Saturday, November 28th, 2009

A primeira versão da peça publicada pelo www.centopeia.net tinha uma epígrafe de Claes Oldenburg. Depois da experiência da transmissão ao vivo, ontem à noite, no TPA, não pude deixar de lembrar desse texto do artista, cujo final transcrevo aqui, na íntegra:

“O divertido é misturar alhos com bugalhos - por exemplo: combinar nossas noções de escultura com nossas noções de um simples objeto “comum”: almondega com quarto de dormir. As sutilezas e as estratégias dessa controvérsia me encantam; disputo as definições - assim ou assado - uma idéia, outra idéia - e então saio do estúdio e corro para as ondas do Pacífico (frias nessa época do ano). Mas o trabalho pronto não é um problema; é a minha solução. Uma problema para os outros, talvez. Se eles quiserem poderão retomar meu caminho. Bem no início há uma “norma” obstinada, uma decisão cujas consequências são imprevisíveis. A norma é seguida com firmeza - os fatos cedem ou amoldam-se à decisão. A solução é fascinante (se vier) porque a proposta é absurda. Arte como esporte. (Nova York, maio de 1967)

Enfim, plano sequência ou montagem, teatro ou cinema, merda ou ação? Agora não importa. Foi um privilégio ter participado do jogo. Obrigado.

Um pouco antes

Friday, November 27th, 2009

Uma das perguntas para a versão radiofônica da peça Esquecendo Wimbledon era como um enredo tradicional podia sobreviver à ausência de imagens e tempo limitado a pouco menos de cinco minutos. Apelou-se para a lembrança de um repertório cinematográfico familiar, envolvendo alguma superação no universo esportivo. Como são histórias longas, sem querer abrir mão de algumas de suas personagens, pensou-se que uma versão condensada ao extremo poderia ser encontrada em um tipo de filme pornográfico, em que não há espaço para sustentar qualquer ilusão porque tudo converge para a filmagem do ato sexual com uma proximidade anatômica. O resultado é, em parte, algo que pode ser resumido pela sinopse: “Quando o jogo parece perdido, uma jovem que vive em uma antiga vila olímpica encontra a oportunidade de realizar seu desejo.”
Depois de uma conversa sobre relações entre teatro e cinema, Renata Jesion e Nelson Kao abriram a possibilidade para que a peça se realizasse no momento em que essas duas linguagens se encontram pela filmagem de uma performance ao vivo. E, enquanto assistia a um dos ensaios iniciais, do primeiro andar do Teatro Para Alguém, vi pela tela de vídeo que exibia a c filmada que a direção de Sabrina Greve tinha optado por planos fechados a uma distância a meio caminho entre as abstrações do texto e a proximidade imposta por um filme pornô. Dessa maneira, seguindo a regra básica do TPA, o enredo mínimo que a peça traz se sustenta em um plano seqüência em que os diálogos estão conectados por meio closes em movimentos associados quase que exclusivamente às roupas das personagens, uma simplicidade justa que o poeta e ensaísta Sérgio Medeiros previu como um sonho comum com “coisas claras: superfícies, tênis…” Agora, se o ator do filme erótico vive para mostrar uma ação, a expectativa para a estréia desse trabalho em forma de uma webcena, parece ser a de conseguir perceber no audiovisual, pela luz, sonoplastia e principalmente pela interpretação do elenco, aquilo que as personagens realmente sentem do lado de lá, no interior da imagem.

Texto original da peça www.centopeia.net
Versão radiofônica www.fundacaobienal.art.br

Helô Pait e o ‘Corpo Estranho’

Saturday, November 7th, 2009

Melhor Que A Clarice Lispector_0062

A Renata me pediu para listar o texto que a Heloisa Pait (à esquerda, acima, com a atriz Priscila Gontijo) escreveu sobre ‘Corpo Estranho’ na seção Na Mídia (ali no Hall). Mas a Helô é mais de casa do que alguém que escreve sobre ou critica o Teatro Para Alguém. Então resolvi reproduzir aqui (com o link para o original):

Novela ao avesso

Acabei um artigo complicado e agora posso escrever no blog. Hoje é sobre o Teatro para Alguém. Participei de um espetáculo há duas semanas, então não preciso ser isenta, sou parte da turma. E vou jogar confete.

Nem poderia ser isenta, pois sou fã da Renata desde que ela era rainha da patinação na Hebraica. Mas eu não apostava muito no Teatro pela Internet, afinal que meio é esse? Tinha baixado uma Dona Carlota em mim, e eu perguntava: é teatro, é filme, é internet? Afinal de contas, o que você fazzz?

Quando vi como ficou legal o Melhor que a Clarice Lispector eu perguntei para o Lucas: e esse Corpo Estranho, o que é, hein? Chorei de rir só com a sinopse. Tem um bar dos sósias, ele me contou. Um bar onde vão só sósias.

Disse para o Lucas ler o Gigante Burocrator, de autoria de meu irmão, que seria uma espécie de Lourenço Mutarelli da Poli. Ele não esperou o meu email – eu estava por conta do artigo supra mencionado – e achou na internet, leu e adorou. Legal!

E eu fui checar o tal Corpo Estranho, do Mutarelli ele mesmo, o que escreveu O Cheiro do Ralo, com o Selton Mello. A Renata disse: é o universo dele mesmo, ele é assim. O que só confirma minha suspeita que artista não inventa nada. A gente só conta pros outros onde vive de verdade.

Bom, chega de entretantos. A Renata que falou: é uma novela. No espisódio 7 da primeira temporada, por exemplo, tem um papo de casal discutindo a relação. Que nem novela. Mas é do avesso. Os assuntos bizarros, um creme vaginal, o bar dos sósias. Maravilha.

No episódio 9 a cena do médico mostrando o pé descalço como numa tirinha, e a gente rindo como ri de tirinha. Mas ri angustiado, que trama bizarra. Novela, teatro, tira, cinema, sei lá.

Só sei que eu parava de escrever o artigo e falava: ah, mais um episódiozinho. Só mais um. Depois eu volto, é até bom, risada faz bem pro cérebro e eu vou escrever melhor depois. Então fui vendo um a um, tipo novela, contente com o gancho.

E o melhor é que ainda tem a segunda temporada!

Veja também o depoimento da Helô sobre seu texto aqui.

TPA discute dramaturgia no SESI

Sunday, October 18th, 2009

O Teatro Para Alguém vai participar na semana que vem do 1º Ciclo do Núcleo de Dramaturgia do SESI-British Council. No dia 26/10, segunda-feira, às 11h30, nosso diretor de fotografia e cenógrafo Nelson Kao estará na mesa “As Linguagens Dramatúrgicas na Sociedade Globalizada”, conversando com o dramaturgo inglês David Ian Neville com mediação de Ricardo Medeiros.

Para quem não lembra, tivemos um projeto em conjunto com os novos dramaturgos formados lá neste ano. Foi o projeto Os 12 Dramaturgos, com peças inéditas, todas ainda disponíveis, claro, no Porão.

O debate do dia 26 vai ter transmissão ao vivo pela web, ok? Fiquem ligados.

ciclodedramaturgia

‘É a tecnologia nos conectando com experiências do passado’

Thursday, July 30th, 2009

Há 50 anos era divertido e emocionante assistir teledramaturgia ao vivo. Bom, pelo menos meus pais diziam que era! Vendo atores interpretar, errar, improvisar, diante das câmeras.

Veio o videotape e as novelas gravadas substituíram o teleteatro, que ficou obsoleto. Mas eis que surge na internet uma nova categoria de entretenimento. Novamente atores sobem no fio da navalha pra interpretar em tempo real.

Por isso, convido todos a assistirem as mini peças que estão sendo transmitidas toda sexta às 10 da noite, no endereço abaixo.

www.teatroparaalguem.com.br

É só clicar e assistir. De graça.

Na sexta passada vi a peça chamada NÉCESSAIRE DA SÉ”, de Marcello Jordan. É uma comédia leve e despretensiosa. E posso garantir que as atrizes são maravilhosas… (Elenco: Ana Andreatta e Amazyles Almeida)

Ass: Leonardo Alkmim

Segunda leva de fotos do Corpo Estranho 2

Monday, July 13th, 2009

Ontem terminamos as filmagens de Corpo Estranho 2. Uma mistura de felicidade, alívio e apreensão. Se por um lado encerramos este período tão especial, envolvidos com profissionais incríveis de todos os campos (atores, criadores e técnica), agora fica o medo de ver o material bruto, sem saber se fomos capazes de dar conta do recado no nível que desejávamos ou não.
Estas fotos, atrapalhadas como estão, refletem este estado de espírito. São fotos de quem estava completamente imerso no processo, incapaz de diferenciar (ou, às vezes, sequer entender) o que estava acontecendo, pois estávamos completamente em processo, no olho do furacão. Agora, ao resgatar as imagens, começo um trabalho de rever, reconhecer e redescobrir o que aconteceu.
Diferentemente das fotos da Alessandra, acho que estas são, puramente falando, menos fotográficas, imagéticas. A imagem fotográfica tem sua gramática própria, suas regras, suas nuances. Formas, movimento, composição, contraste, linhas, cores. Geralmente estes elementos são até mais importantes do que o próprio assunto retratado, pois essa é a essência da fotografia, aquilo que a diferencia das outras artes. No entanto, eu peco aqui pelo contrário. Muitas vezes o assunto predomina, o tempo para fotografar é tão ínfimo que e estamos tão ocupados preparando o espetáculo (ou dele participando, quando estou filmando) que para mim é muito difícil separar a emoção do momento e transcender o seu registro. Não quero aqui me desculpar, ou diminuir o seu valor. Espero o contrário, que eu seja capaz de transmitir com elas a emoção que foi cada um dos episódios, sua pulsação, nossas crises, nossas dúvidas, nossas tentativas e acertos. Espero que apreciem e que, mais tarde, possamos compreender através delas o que é e como foi este novo Corpo Estranho dentro de cada um de nós. Corpos pulsantes, sempre vivos, de criação, suor e loucura, que iremos descobrir juntos à medida que eu for selecionando as fotos, as quais serão publicadas aqui imediatamente, logo em seguida.

Novas filmagens, grandes dúvidas.

Monday, June 22nd, 2009

Após trabalhar alguns anos no Teatro da Vertigem eu aprendi o valor positivo dos conflitos. Lá eu vivenciei os choques entre os locais de encenação que trazem a realidade do locus (igreja, hospital, presídio, Rio Tietê) em contraposição à realidade fictícia do teatro e sua linguagem sintética e simbólica. O choque entre escritores que não são dramaturgos de teatro experimentando os palcos. O choque entre as criatividades individuais em uma realização coletiva/colaborativa… E acho que intuitivamente trouxe aqui esta postura, ao estabelecer como uma meta do TPA a fricção criativa (expressão que eu aprendi com o Antônio Araújo) entre profissionais de áreas tão complementares quanto distantes: teatro e cinema. (Aqui também temos os conflitos dos escritores que nunca fizeram um espeteaculo para teatro, mas isso é assunto para mais um futuro e imenso post…)

E agora que começamos os trabalhos para o Corpo Estranho 2 com uma nova equipe, já tivemos diversas e acaloradas discussões.

Vejam, por exemplo, os desabafos acalorados de nosso diretor, Danilo Marques, em seu Blog.

Porque aqui estamos abertos a experimentações, portanto existem regras, mas elas são bastante flexíveis. E, ao longo destas experimentações descobrimos que existem culturas absolutamente diferentes, quase intransponíveis entre os dois mundos, que aqui simplifico como a primazia do Ator (Teatro) versus a primazia da técnica (Cinema).

Talvez a primazia do ator seja fruto de um modelo estético adotado para a sobrevivência do Teatro no Brasil. Afinal, estamos num país que valoriza pouco a Cultura, e portanto, sobra muito pouco para se investir nela, e menos especificamente no Teatro, que possui menor visibilidade em relação a outras artes com mídias muito mais poderosas, como a TV e o Cinema. E como o orçamento para a produção de espetáculos geralmente é muito restrito, privilegia-se o ator em detrimento a todo o resto (cenografia, iluminação, maquiagem), pois fica-se no fundamental para que a ação teatral ocorra. O ator, no teatro, é o único elemento que não pode ser economizado. Ele é o rei. As máquinas precisam se adaptar ao ator.

No audiovisual, no entanto, tudo passa pelas lentes de uma câmera. Cuja diária geralmente custa muito mais que a do ator. Isso sem contar nas diárias de toda a equipe. Operadores, maquinistas, diretores disso, diretores daquilo, assistente do diretor disso e daquilo… A técnica é tão cara que ela vira a prioridade. O ator precisa se submeter ao tempo da técnica, das máquinas.

Aqui então surge o primeiro ponto que quero trazer à tona: a dificuldade de adaptação que ocorre entre ambas as partes, os profissionais do audiovisual, com a cultura da técnica em direto confronto com os profissionais de teatro, com a cultura do ator.  Ambos sofremos no processo de “Socorro…”, pois cada um tinha a sua cultura.

Existe um tempo necessário para a técnica que o ator ou o diretor de teatro não entende. Uma câmera, por melhor que seja, nunca é tão boa como o olho humano. Precisa de uma série de ajustes para chegar a um resultado que nem de perto consegue traduzir todas as sensações do momento. Muitas vezes a visão através de uma câmera já é empobrecedora, ainda mais numa telinha pequena e bidimensional de um computador. Isso sem contar com a ausência do cheiro, do tato, de todos os outros sentidos que nunca poderão ser transmitidos através de máquinas. Por isso a técnica precisa de tempo. De planejamento. De setups e presets. De codecs. De equipamentos. De ensaios e ensaios técnicos. Afinal, a câmera também é mais um ator. O ator invisível que, muitas vezes, é o olhar subjetivo do espectador.

Uma vez ouvi uma historinha, dessas que a gente nunca sabe se é mito ou não: Disseram a um grande fotógrafo que ele era um exímio contador de histórias. Que ele conseguia criar imagens extremamente belas e sensíveis, e, portanto, que ele conseguia transmitir com uma facilidade enorme sensações muito profundas e de uma forma sintética, direta. Ele respondeu que ele nunca se achou uma pessoa capaz de se exprimir com facilidade, ao contrário do que todos pensavam. Afinal, se ele fosse tão bom pra dizer o que queria, não precisaria carregar tantos equipamentos consigo para dizer apenas uma única imagem.