Uma das perguntas para a versão radiofônica da peça Esquecendo Wimbledon era como um enredo tradicional podia sobreviver à ausência de imagens e tempo limitado a pouco menos de cinco minutos. Apelou-se para a lembrança de um repertório cinematográfico familiar, envolvendo alguma superação no universo esportivo. Como são histórias longas, sem querer abrir mão de algumas de suas personagens, pensou-se que uma versão condensada ao extremo poderia ser encontrada em um tipo de filme pornográfico, em que não há espaço para sustentar qualquer ilusão porque tudo converge para a filmagem do ato sexual com uma proximidade anatômica. O resultado é, em parte, algo que pode ser resumido pela sinopse: “Quando o jogo parece perdido, uma jovem que vive em uma antiga vila olímpica encontra a oportunidade de realizar seu desejo.”
Depois de uma conversa sobre relações entre teatro e cinema, Renata Jesion e Nelson Kao abriram a possibilidade para que a peça se realizasse no momento em que essas duas linguagens se encontram pela filmagem de uma performance ao vivo. E, enquanto assistia a um dos ensaios iniciais, do primeiro andar do Teatro Para Alguém, vi pela tela de vídeo que exibia a c filmada que a direção de Sabrina Greve tinha optado por planos fechados a uma distância a meio caminho entre as abstrações do texto e a proximidade imposta por um filme pornô. Dessa maneira, seguindo a regra básica do TPA, o enredo mínimo que a peça traz se sustenta em um plano seqüência em que os diálogos estão conectados por meio closes em movimentos associados quase que exclusivamente às roupas das personagens, uma simplicidade justa que o poeta e ensaísta Sérgio Medeiros previu como um sonho comum com “coisas claras: superfícies, tênis…” Agora, se o ator do filme erótico vive para mostrar uma ação, a expectativa para a estréia desse trabalho em forma de uma webcena, parece ser a de conseguir perceber no audiovisual, pela luz, sonoplastia e principalmente pela interpretação do elenco, aquilo que as personagens realmente sentem do lado de lá, no interior da imagem.
Texto original da peça www.centopeia.net
Versão radiofônica www.fundacaobienal.art.br



