121.023 J Teatro de Renata Jesion estreia: 8/1/2009 sinopse: "121.023 J" conta a história de um rapaz que sai de casa para comprar um pão e, no caminho de volta, é levado sem nenhuma explicação para uma nova realidade, onde é considerado culpado por algo que ele não consegue se lembrar. Sua casa passa a ser um lugar em que não conhece ninguém, sua cama um pedaço de pau, seu novo trabalho não parece ter utilidade e é constantemente alimentado com uma comida que o faz emagrecer. Além disso, passa a ouvir conselhos de uma voz que não consegue descobrir de onde vem. Espantado, procura sobreviver dentro desse mundo tão estranho. Uma história em que o importante não é o sofrimento e sim o jogo da sobrevivência. elenco: Mauro Schames, Renata Jesion e Zemanuel Piñero direção e adaptação: Ariela Goldmann direção de fotografia: Lucas Barreto edição: Henrique Reganatti O que você achou? Comente no Banheiro. Ato I Ato II Ato III Ato IV Ato V A MONTAGEM - no Teatro Para Alguém A convite de Renata Jesion, a mesma diretora do espetáculo no teatro, Ariela Goldmann, aceitou o desafio de adaptar o espetáculo ao Teatro Para Alguém. Exigiu, no entanto, total liberdade para fazer sua versão online. Ariela, em discordância com as regras definidas por Renata, não aceitou fazer o espetáculo em plano sequência (sem cortes). Justificou sua decisão criticando que não podíamos exigir regras muito rígidas para algo que ainda não tínhamos certeza do que é (sobre a linguagem que estamos buscando, híbrida entre a Internet, o Cinema e o Teatro). Aceitamos seu desafio e deixamos aqui sua versão, dirigida e editada por Ariela. - no teatro tradicional Este espetáculo estreou em 13/10/2004, baseado numa necessidade pessoal da atriz e diretora Renata Jesion, o que a impeliu a escrever seu primeiro texto teatral. A história se inspira em um homem cujos depoimentos foram dados por cinco anos seguidos à autora. "121.023 J" chega aos palcos como um "pequeno épico de estações" em que acompanhamos a trajetória pitoresca de um rapaz num mundo que, de tão terrível, parece impossível de existir. CRÍTICAS - Alberto Guzik, no blog "Os dias e as horas", 17/5/2007 http://os.dias.e.as.horas.zip.net/arch2007-05-13_2007-05-19.html Ia dar uma dica, saiu uma crítica. Aí vai Renata Jesion volta ao cartaz com o impactante espetáculo "121.023 J", peça por ela escrita e protagonizada. O título nada tem a ver com numerologia nem com qualquer espécie de jogo. Seu significado é mais sinistro. Esse foi o número tatuado em um campo de concentração alemão, no braço de um europeu prisioneiro, durante a era nazista. O personagem foi inspirado no pai da atriz, que passou pela terrível experiência. A partir das memórias suas e da família, Renata Jesion construiu "121.023 J" como uma declaração de amor. E como um tributo à resistência e à sobrevivência.
O espetáculo retorna à cena amanhã, dia 18, às 21h, no Teatrix, o restaurante e espaço cultural instalado junto do Parque Trianon, na Peixoto Gomide 1066. Fica em cartaz às sextas e sábados, e não pode ser perdido por quem gosta de bom teatro e bons atores. O texto de Renata, que estreou há dois anos e dá início agora a sua quarta (e talvez última) temporada na cidade, oscila entre o realismo e o lirismo. Mas essa mistura perigosa, que tornou xaroposo e intragável por exemplo "A Vida É Bela", do oscarizado e careteiro Roberto Begnini, é manipulada pela atriz com absoluto equilíbrio.
Nada foi pensado para ser grandioso neste texto. Pequenas coisas o compõem, como o episódio inicial da trama. Na Europa, durante o período nazista, um rapaz sai de casa para comprar pão e não volta mais. É levado para um interrogatório, depois para um campo de concentração. Com fatos como esse, banais e corriqueiros naqueles tempos repressivos, Renata Jesion traça um quadro sombrio das atrocidades a que seres humanos submetem outros seres humanos. Mas a peça não é um panfleto de denúncia, como tantos milhares houve antes. É uma obra de arte que mescla humor ao terror, tendo a espantada esperança em uma nova vida como aceno final.
Em um procedimento chapliniano, a peça expõe o absurdo do mundo por meio do riso. E assim a trama se torna paradoxalmente mais dolorida. Um trabalho de força irresistível, construído com uma sinceridade que arrebata a atenção do espectador.
Ariela Goldman, competentíssima encenadora, dirigiu "121..." com precisão e objetividade. Poucos elementos lhe bastaram para recriar a Europa oriental, onde a ação tem início. O espetáculo é leve, apesar de tratar de temas pesados sem escamoteá-los. O humor e a tragédia são dosados com precisão. A direção impôs ao todo um ritmo bem cuidado. As cenas se sucedem velozes, mas essa rapidez não impede que o público perceba todas as nuances da história. A trajetória do protagonista, o rapaz do pão, é encarnada por Renata Jesion com todos os recursos necessários aos momentos patéticos, trágicos e cômicos que ele vive. A máscara da atriz tem uma mobilidade notável, iluminada pelo olhar melancólico/perplexo. Não se entende como Renata não ganhou prêmios por este espetáculo. Saída do CPT de Antunes Filho, parceira de Dionísio Neto em "Perpétua", está entre as melhores de sua geração. Ao seu lado, em "121..." estão Mauro Schames e Zemanuel Piñero que fazem com extrema habilidade diversos pequenos papéis. Não se pode deixar de ver "121...". É um trabalho que acompanha o espectador por muito tempo, fixa-se em sua memória e enriquece sua experiência de vida. - Sérgio Sálvia Coelho, na "Folha de S. Paulo", Ilustrada, 10/8/2006 http://www1.folha.uol.com.br/fsp/acontece/ac1008200602.htm Atriz narra pesadelo de guerra com fina ironia Em tempos de guerra no Líbano, é inoportuna uma peça sobre o Holocausto? Não, muito pelo contrário. Aqui, um rapaz de 17 anos sai para comprar pão e, sem nenhuma explicação, é preso e mandado para um campo de concentração em que nada faz sentido. Antes de qualquer contexto histórico e político, antes de se perder em justificativas e culpas, é preciso condenar como inadmissível qualquer atentado à liberdade e à dignidade, em qualquer época e lugar. Renata Jesion, jovem atriz que já trabalhou com Antunes Filho e Gerald Thomas, conta em "121.023J" a história de seu pai, Majer Jesion. Não procura transformá-lo em herói, não alardeia a dor insuperável que costuma se diluir em lágrimas antes de se expor de modo essencial. Faz uso de um fino humor, mais próximo da ironia amarga de Franz Kafka do que a carnavalização amenizadora de Roberto Benigni (diretor e protagonista de "A Vida É Bela"). Sabe que, mais do que por bravura, a sobrevivência nessas situações-limite foi devida ao acaso, o que engloba a sua própria existência: contar a aventura do pai é buscar a razão por ter podido nascer.
Tática de guerra O número do título faz assim menção à desumanização da guerra, tanto na tática perversa de tatuar um número que substitua a história pessoal do prisioneiro quanto na redução estatística das baixas: lê-se nos jornais quantas vítimas houve no dia e mais raramente quem eram. Mas também traz uma mensagem secreta: é a junção da data de nascimento de seu pai com a sua, junto à inicial do sobrenome. A afirmação da vida estando assim discretamente no núcleo da narrativa, o seu contexto é voluntariamente o mais geral possível. Não se pronuncia a palavra "judeu" nem nenhum nome histórico. Nesta peça, construída em anos de pesquisa de relatos, pouco acontece, mas essa simplicidade é fundamental para que o seu alcance seja o mais amplo possível. O rapaz não desiste da vida porque uma voz dentro dele o impede: é a voz de sua filha, mas também de si mesmo no futuro, que traz a necessidade de continuar. Ariela Goldmann honrou a responsabilidade de dirigir esta montagem com o máximo de delicadeza. Com uma direção de arte minimalista, que chega à miniatura em uma cena antológica que revela as câmeras de gás, tira o máximo proveito da figura de adolescente desajeitado de Renata, que atrai uma imediata simpatia. Apoiando-se no contraponto eficiente de Mauro Schames e Zemanuel Piñero, a atriz expõe sua história como um estranho conto de fadas, que deve sempre ser contado, por ser um pesadelo repetitivo. Senhores da guerra, apressem-se em encontrar uma saída. As pessoas precisam comprar pão. 121.023 J - 4 estrelas - Valmir Santos, na "Folha de S. Paulo", Ilustrada, 13/10/2004 http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1310200410.htm Atriz faz em cena retrato do pai quando prisioneiro de guerra Certa noite, o comerciante Majer Jesion, judeu de ascendência polonesa, acompanhou a filha adolescente até o teatro da Hebraica, em São Paulo. Eles assistiam a uma apresentação da peça "Bent", do americano Martin Sherman, quando veio a cena dos presos que removiam pedras de um canto para o outro num campo de concentração. "Esse era o meu 'trabalho' lá", disse Jesion, emocionado. A filha Renata tinha 11 anos. Mais de duas décadas depois, no apartamento do bairro do Paraíso, pai e filha dividem lembranças com o repórter para alavancar outras ainda mais distantes, vividas pelo hoje aposentado Jesion, 80, prisioneiro de guerra que sobreviveu na Alemanha de 1940 a 1945, Segunda Guerra. As agruras do período são pinceladas num "pequeno épico de estações", como a autora define a peça "121.023J", escrita a partir de entrevistas com o pai. Renata, que já trabalhou com Antunes Filho, Gerald Thomas e Dionisio Neto e está no filme "Olga", convidou Ariela Goldmann para a direção. Vai contracenar com Zemanuel Piñero e Mauro Schames. A temporada estréia hoje no Sesc Ipiranga. O título embaralha os meses de nascimentos de Jesion e da autora, somados à inicial do sobrenome, mas poderia ser o "143.062" tatuado no braço esquerdo dele. O comerciante morava em Gostynin, a 120 km de Varsóvia, na Polônia. Tinha 17 anos quando um dia saiu de casa para comprar pão e nunca mais voltou: foi detido e deportado para a Alemanha. Jesion passou por quatro campos de concentração. Sofreu os piores momentos no de Birkenau, em Auschwitz. Transportado para outra realidade, ele teve no pão escasso o alimento que o mantinha em pé; e numa desconhecida voz que o "acompanhava", a sua principal interlocutora no "jogo da sobrevivência". Renata, 31, apreende a história do pai sob perspectiva "leve, picaresca". "Não é uma peça para sensibilizar a colônia judaica. Quero universalizá-la", diz a caçula que sonha ainda com versão para documentário ("As Manhãs e Majer", roteiro pronto). Um bom retrato seria o do homem que se diz habituado a "começar do zero". Há quatro anos, Jesion foi operado no coração. Nada, talvez, se comparado a dois momentos de risco citados na peça, nos últimos dias como prisioneiro dos nazistas. Quando já tinha sido acolhido pela Cruz Vermelha, eis que Jesion deparou com soldados da Juventude Hitlerista. Foi conduzido a um delegado anti-semita. Perguntado se era judeu, disse que sim. Levou um tapa do delegado, que incumbiu um soldado de lhe dar um fim. "Eu sobrevivi até agora. Se tiver que me matar, não atire pelas costas", pediu Jesion ao soldado que o mandara caminhar. "Leb wohl", ordenou-lhe o soldado, em alemão, algo como "adeus", "vá, se manda". E assim fez Majer Jesion. Depois da guerra, ele deambulou mais alguns anos pela Alemanha. Chegou ao Brasil em 1949, atendendo ao chamado de uma tia. Era Carnaval no Rio de Janeiro. "Puxa, saí do inferno diretamente para o hospício", brincou. Logo mais à noite, a dois dias de completar 81 anos, assistirá ao espetáculo ao lado da mulher, Jamile. "A vida tem sido muito boa, não posso me queixar." FOTOS DAS GRAVAÇÕES (por Nelson Kao) (você pode baixar de nosso site ou flickr!)
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